A superfície de lugar algum

Tateio com a mão fria a superfície, na busca de uma certeza. Procuro por uma superfície morna, que ilustre ou transmita uma sensação de segurança, de terra firme, de porto seguro. Encolho-me no chão rústico de qualquer acostamento, vendo ou imaginando veículos que não estão, e que não vão chegar a lugar nenhum. Sou capaz de traçar, no tráfego desses veículos da estrada interminável, a minha falta de perspectiva.

No acostamento, esgotada e inerte, brinco com meus dedos em pedrinhas e folhas insignificantes no chão, ouvindo o tique-taque do relógio que ficou naquela casa vazia de afeto, de cuidado e de importância. Enquanto o céu acima de mim ganha um tom azul-marinho, detalhando a metáfora desta imensidão. Esta imensidão na qual eu me perco e me arremesso, desejando ser inexplicavelmente salva.

Posso sentir a densidade na atmosfera, enquanto meu corpo transpõe toda a insegurança e a magia de um espaço sem fim, sem cordas, sem barras, sem pontes, sem apoio, sem expectativas. E eu me lanço ao céu aberto, sabendo que, mais uma vez, chegarei além do baixo, do profundo, do alicerce, da fundação nunca fundada.

Intacta, ilesa, mas repleta de relevos que apenas eu posso ver, tocar e reconhecer, pouso meus pés no chão irregular de algum outro lugar desconexo.
E dou início a um novo processo de assimilar e acomodar a superfície que não ilustra, que não transmite, que não existe.

A casa onde nunca estive, e o tique-taque do relógio que nunca pôde me inquietar ou confortar.
Similares à insignificância das pedrinhas e folhas deixadas por acaso em um acostamento qualquer.

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