O sufocar em palavras
Sempre que leio sobre o nazismo, permaneço por um longo período em choque. Extasiada, impressionada, derrotada.
Não sei qual destas palavras cabem mais adequadamente, quando na verdade me faltam palavras. A sede em escrever, escoar palavras transborda em mim. Transborda, por não encontrar palavras certas, corretas, expandir este sufoco que sinto quando sem notar, me vejo no frio, na fome, na dor, nos dias estagnados vividos por todos aqueles rostos vazios.
Falta-me a compreensão, a sabedoria em não ler mais uma vez sobre, evitando todo este desequilíbrio, esta tristeza a qual não é justificada pelos que vivem no hoje.
Assisto crianças, adolescentes, jovens, livres, desimpedidos, com o direito de ir e vir gravado no longo texto da constituição brasileira, distantes da consciência em dar valor a isto, parecendo-se tão normal, considerando-se um tanto inútil.
Existem aqueles que não têm ciência da existência deste artigo na constituição.
Estas palavras que me faltam, esta vontade de gritar aos seres de hoje o sofrimento no antes com o intuito de sentir um tanto de apresso ao menos por esta liberdade no agora.
Oh crianças: vocês gritam com seus pais, vocês se revoltam quando não há a possibilidade em comprar o brinquedo lançado a duas horas atrás, vocês jogam seus iogurtes no ralo da pia, vocês deixam de lado o pãozinho com margarina, Sem o conhecimento de que em um tempo que para vocês é considerado distante, crianças padeciam longe dos pais. Morriam desnutridos. Desejavam um canto quente para o frio.
Oh adolescentes: vocês doam noites em claro para os adultos insuportáveis. Vocês têm o desejo de sair de suas casas para morar com amigos vivendo em dias sem compromissos. Vocês frequentam a escola de modo relutante, quando adolescentes como Anne Frank ansiavam por uma casa junto aos adultos insuportáveis. Sonhavam com a volta a escola tediosa. Traçavam em suas mentes a profissão para exercer.
Eles foram abdicados do direito de ir e vir. Eles foram privados das delícias, em ser crianças, das energias emanadas por adolescentes inconsequentes, Eles sentiram frio, eles esmaeceram de fome, exerceram trabalho forçado por horas e horas, destilados de qualquer esperança.
Crianças, adolescentes, jovens, adultos, eximidos de chances. Presenteados por um desespero quase interminável, e a ponte, aquela que ligou “o quase ao interminável; a morte”.
Vozes caladas para todo o sempre.
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