E a tempestade chegou,
Lenta e sorrateira, disfarçada de uma chuva efêmera de inverno.
Sim, inverno – pois, embora as chuvas de verão possam refrescar,
Também se manifestam com uma força devastadora.
Não se deixe enganar.
Esta é, entretanto, a própria tempestade de verão:
Para uns, um alívio que ameniza o ardor da estação mais inclemente;
Para outros, uma entidade implacável, que se apresenta em veste de ruína,
Desnudando estruturas e princípios.
Entre estes últimos, encontrávamo-nos nós,
Desarraigados de nossas origens, afastados de nossos valores.
E, juntos, devastados pela mesma tormenta que, sem intenção, nos aproximara, nos estendemos nossas mãos,, entregando-nos àquela força inexorável.
Os ventos, sempre imprevisíveis, por um tempo nos levaram a crer
Que permaneceríamos unidos enquanto a chuva caía,
Que sorriríamos ao despontar de um arco-íris em algum recanto vasto do céu.
Mas, no ápice das águas torrenciais, nossos dedos se soltaram.
Deixamo-nos levar enquanto a tempestade arrastava
E transformava nossa própria realidade em um turbilhão.
E, ao longe – mas tão próximos –, renunciamos ao abrigo
Para salvaguardar aqueles que necessitavam apenas do frescor
De uma breve chuva de verão.
Contemplávamo-nos, imersos no cinza da neblina,
Firmes na convicção e esperança de que,
A cada gota de chuva fria, a cada mudança na direção
Dos ventos indisciplinados, se anunciaria o nosso tempo:
O tempo em que o cinza cederia lugar ao verde,
O tempo em que o dourado voltaria a colorir.
Tempo de juntos, dedilharmos o acorde de sol menor –
Um gesto de diversão, em prol de dias amenos,
Que nos acolhesse no conforto de um abraço,
Nosso abraço, em meio à tempestade,
Que, enfim, se transformara para nós
Na doce chuva de verão.
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