A literatura existe por que a vida, não basta

Descobri o prazer da leitura aos nove anos, quando vivia numa situação delicada e vulnerável. Eu me perguntava se aquilo que espiava na televisão em horário nobre poderia, de alguma forma, chegar até mim. E, de certo modo, chegou  não sob a forma de luxo ou fantasia, mas sob a sombria realidade retratada nas colunas da pobreza, da indiferença, do descaso e da ausência de estrutura familiar.

O primeiro livro que li foi Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos, obra que, embora classificada como literatura infantil, revela uma densidade muito maior do que se imagina. É um clássico brasileiro pouco valorizado, assim como as crianças descalças pelas ruas, invisíveis aos olhos de quem dispõe de recursos e conhecimentos para torná-las, ao menos, visíveis à sociedade.

Zezé, o protagonista de Meu Pé de Laranja Lima, assemelhava-se a mim. Nos livros, encontrei similaridade, compatibilidade e, sobretudo, comecei a enxergar outras perspectivas para além dos muros rebocados da periferia em que cresci.

Foi uma professora quem me ensinou a gostar de ler, ainda na terceira série. Ela me acompanhava desde o início da vida escolar e, com olhar atento, percebeu em mim uma garota melancólica e precoce, que sabia mais do que deveria. Ela via, nesse olhar distante e ao mesmo tempo prescrutante, uma ânsia de agarrar-se a algo que a fizesse fugir da própria realidade.

Aos onze anos, ela me apresentou Harry Potter e a Pedra Filosofal, como se pressentisse que eu precisava aprender a sonhar. Descobri então que a mim também cabia o vício da leitura: devorei aquelas páginas com o voraz apetite de um leão ao abocanhar sua presa.

Aos quatorze anos, já perdera a conta dos livros que preenchiam meus dias e noites sem nenhuma expectativa  mas com a certeza de ser “normal”, imersa na minha extensa profundidade. Nesse período, criei minha frase de cabeceira: “A literatura existe porque a vida não basta”. Em cada exemplar, sentia-me acolhida, libertada para mergulhar em histórias profundas, tal como meus próprios pensamentos.

Personagens tornaram-se moldes da minha personalidade e habitavam meu peito, da mesma forma que eu desejava ser acolhida. Aprendi com Anne Frank a cultivar resiliência  ainda que soubesse, pela intensidade de sua dor, que, às vezes, a resistência culmina em destino trágico. Descobri em Elisa, de( O Jardim Secretode Elisa) que as narrativas salvam vidas. Com Sage, em A Menina Que Contava Histórias, compreendi que podemos impedir que o passado dite o futuro. E, em Enquanto a Chuva Caía, entendi que nem todo enredo encerra-se num final feliz.

Ensinei à minha cria, por meio do livro Dezenove Minutos, que o bullying mata. Do muito que li e do pouco que sei, retenho a grandeza de lembrar, involuntariamente, alguma narrativa gravada na eternidade de cada personagem que se aconchegou em mim.

Hoje, no dia primeiro de agosto de 2025, enquanto me sentava na varanda de casa para dedicar uma hora à leitura — um momento para mergulhar, mesmo em terra firme, para além de mim , percebi, como Galeno Amorim relata em Histórias de Gente que Lê, que a literatura me construiu, transmitiu-me novas perspectivas e, sobretudo, me salvou.

Lá fora, o sol claro de inverno doava-me, timidamente, um pouco de vitamina D, enquanto meus cães disputavam afagos nas minhas mãos. Senti-me plena e grandiosa, pois tenho histórias para contar.

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